quarta-feira, 21 de abril de 2010

As mentiras sobre o Gaúcho: Primeiras Contribuições da Literatura

Gonzaga, em seu texto tenta mostrar-nos a formação do gaúcho através das influências sofridas desde a colonização do Brasil e do Rio Grande, pelos portugueses e também os espanhóis.

Esperava-se ter uma comunidade ideal, forjada no delírio imperialista europeu. Um universo anticapitalista através do sacrifício e a mais valia (Mais-valia é o termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho produzido) dos nativos e o ventre passivo das índias, e o gado das reduções.

O padre lança o gado nas vacarias, buscando atrair para as regiões mais desertas o caçador branco e suprir futuras necessidades de seus povos.

O couro passa a ter para economia uma importância fundamental durante o século XVIII.

Os missionários que já tinham enfrentado grandes dificuldades se rendem a nova ordem econômica que se instalava no Brasil, o capitalismo.

Esse capitalismo ainda era arcaico, subsidiário, mesmo assim capitalismo, com sede de lucro, extração de mais valia, e apropriação de riquezas.

A coroa oferece terras incomensuráveis latifúndio distribuído entre pessoas para eles digna de crédito, tais como militares e homens de posse.

A grande propriedade asseguraria ao estado português à valiosa courama, o efetivo domínio territorial, a repressão do regime anárquico de preia do gado alçado.

Em busca deste couro cavaleiros errantes vagavam pelos campos solitários ou em bandos.

Indivíduos denominados de gaudérios ou gaúchos pouco se sabia, senão que sua origem residia tanto na dispersão das Missões, quanto dos estrupos das índias, pratica corriqueira de bandeirantes e soldados. Eram indiáticos, mestiços raros os brancos.

Herdaram dos guaranis a habilidade para as lides pastoris (campeiras) a capacidade para montar, mas na dispersão dos povos originários do lugar perderam sua identidade tornando-se marginais.

Não se submetiam as regras do capitalismo, era indispensável desaloja-lo de seus domínios, para evitar a rapinagem.

Os estancieiros tratavam de incorpora-los ao processo produtivo, ainda que semibárbaros constituíam uma mão de obra especializada, e eram fiéis aos patrões, um procedimento característico das sociedades pastoris.

Integrados as fazendas preenchiam o seu “vácuo” moral com a moralidade dos poderosos: crença na honra, no direito a propriedade privada etc.

O viajante Frances Nicolau Dreys assim se refere ao gaucho:

Sem chefes, sem leis, sem policia, os gaúchos não tem da

moral senão ideias vulgares, e sobretudo, uma sorte de

probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade

de quem lhes faz benefícios ou de quem os emprega ou

neles deposita confiança.

Esses vaqueiros por assim dizer seriam os primeiros boias frias da região sulina.

Em segundo lugar, usou-se estes gaúchos como bucha de canhão nas fronteiras militares, as várias guerras vividas pela província exigiam um expressivo número de soldados pobres e corajosos a arriscarem a vida pela mística do heroísmo e pelo saque sempre compensatório.

Sem descartar o emprego da violência à burguesia rural rio grandense, diferente da Argentina, usou formas menos ásperas para o recrutamento, utilizando-se de certa astúcia ideológica convocando os homens do campo via reprodução de lugares comuns machistas e ufanistas.

Essa relativa suavização, prendeu-se a dois fatores:

Já se havia conquistado a boa terra propícia ao pastoreio

O número de vagos era quase insignificante, por causa da colonização tardia, logo a ameaça destes elementos antisociais tornava-se bem menos que na vizinhança platina.

Penso que até aqui, baseado em Gonzaga, pude descrever um pouco do que foi o então homem nativo deste Estado Sulino, chamado hoje de Gaúcho com honras e glórias, teve no passado uma conotação pejorativa e denegrida.

Com o passar dos anos este homem então marginalizado e submetido às barbáries da sua época, foi se domesticando e integrado a sociedade agora capitalista, como empregado em estância e assalariado.

Supõe-se então que em meados do século XIX a figura marginalizada do gaúcho pudesse já estar extinta do convívio dos cidadãos. Perfeitamente integrado, vê-se renascer um instrumento de sustentação e imposição ideológica, dos mesmos grupos que até então o haviam destruído como figura humana.

A imagem positiva do gaúcho, nos remete a 1835 quando da Revolução Farroupilha os lideres já ofereciam ao então valorizado e reconhecido mais do que um simples soldo e a perspectiva de saque, senão acenavam aos escravos muito utilizados com a “liberdade”.

Nos primórdios do século XX a imagem do gaúcho foi agitada para o centro do país, como sendo de um homem-coletivo, digno e generoso, mas irremovível na defesa de sua “honra” e dos seus direitos.

Insistia-se na força guerreira e na expressividade popular do tipo sulino, legitimando os interesses dos pecuaristas no contexto da República Velha.

O NACIONAL E O REGIONAL NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE BRASILEIRA

Começava no Brasil, o processo de descentralização política e administrativa, que aparentemente contrariava a tendência da América Latina.

Forjavam-se naquele momento as identidades nacionais, os padrões de mudança tinham semelhança com o processo de descentralização brasileiro, onde a burguesia emergente obtinha controle sobre certos poderes que eram do Estado, através de alianças com elites rurais em regiões mais atrasadas.

Claro que a burguesia queria poder a nível nacional, mas onde havia sérios obstáculos físicos, buscava-se o fortalecimento da elite tradicional a nível regional.

Podemos assim explicar o fortalecimento do regionalismo no Brasil naquele período a partir do “desenvolvimento embrionário e desigual de relações de produção capitalista e da constante importância da agricultura da exportação

Era um momento de discussão da nacionalidade e da região em nosso país.

Naquele momento nossa cultura era desvalorizada, em contrapartida a cultura europeia muito valorizada. (mais recentemente a norte americana)

Assim mesmo existiam reações da cultura brasileira, com a exaltação dos símbolos nacionais.

O primeiro processo é representado por uma série de intelectuais como Silvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues, Oliveira Vianna e Arthur Ramos, que preocupados em explicar a sociedade brasileira através da interação da raça, e do meio geográfico, são extremamente pessimistas e preconceituosos em relação ao brasileiro que é classificado, entre outras coisas, como apático e indolente nossa vida intelectual sendo vista como coisa destituída de filosofia e ciência e eivada de um lirismo subjetivista e mórbido.

O processo inverso daquilo que acaba de ser mencionado é representado pela valorização daquilo que seria mais autenticamente brasileiro. Essa tendência já aparece no século passado nos escritos dos representantes da escola indianista da nossa literatura e atinge seu apogeu nos romances de José de Alencar, nos quais se valorizam as nossas raízes nacionais: o índio, a vida rural etc. A tendência a exaltar as virtudes do caráter brasileiro tem sequência no século e também uma constante em nossa vida intelectual.

O movimento modernista de 1922, com toda sua complexidade e diferenciação ideológica, representa um divisor de águas nesse processo. Por um lado, significa a reutilização do Brasil em relação aos movimentos culturais e artísticos que ocorrem no exterior, por outro lado, implica também em buscar nossas raízes nacionais, valorizando o que haveria de mais autêntico no Brasil.

A partir da segunda parte do modernismo, (1924 em diante) o ataque ao passadismo é substituído pela ênfase na elaboração de uma cultura nacional.

Apesar de um certo bairrismo paulista, os modernistas recusavam o regionalismo

acreditando que através do nacionalismo se chegaria ao Universal.

Em 1926 Gilberto Freyre lança em Recife o Manifesto Regionalista, pouco depois da fundação do Partido Comunista do Brasil, da revolta tenentista e do Centenário da Independência.

Cincoenta anos depois, Freyre chamaria este movimento de “regionalista, tradicionalista e a seu modo modernista”.

Trata-se de um movimento que não exalta a inovação que atualizaria a cultura brasileira em relação ao exterior, mas que deseja ao contrário, preservar não só a tradição em geral, mas a de uma região economicamente atrasada.

O Manifesto Regionalista desenvolve basicamente dois temas interligados: a defesa dos valores regionais e tradicionais do Brasil em geral e do Nordeste em particular.

Freyre afirma que pelo tamanho do Brasil, a única maneira de ser nacional, é ser primeiro regional.

Percebe-se claramente em todos os movimentos sejam regionais ou nacionais o forte propósito de brecar a ascensão das influências estrangeiras no Brasil.

Visto pelo viés político, principalmente no Nordeste, a existência da expressão “quem se aproxima do povo desce as raízes e as fontes de vida, da cultura e das artes regionais”

Me faz pensar que neste momento em que os intelectuais discutem uma nova ordem social, onde está o povo?

Existem também por parte dos intelectuais fortes discussões ideológicas sobre o caráter do brasileiro, sobre a miscigenação e uma suposta democracia racial.

Assim tenta-se construir uma identidade ao povo brasileiro, que por si só não pode ser única, vide a diversidade de povos que aqui se instalaram e praticamente determinaram o que nós seriamos.

Existem vários países dentro do Brasil, unidos por uma mesma bandeira, mas de costumes, crenças, devoções diversas, sobre a qual não se pode exibir a mesma identidade.

E para finalizar, acredito que enquanto existir um exemplar da espécie humana sobre a terra, a sua identidade verdadeira será buscada, tamanha multiplicidade existente.