Gonzaga, em seu texto tenta mostrar-nos a formação do gaúcho através das influências sofridas desde a colonização do Brasil e do Rio Grande, pelos portugueses e também os espanhóis.
Esperava-se ter uma comunidade ideal, forjada no delírio imperialista europeu. Um universo anticapitalista através do sacrifício e a mais valia (Mais-valia é o termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho produzido) dos nativos e o ventre passivo das índias, e o gado das reduções.
O padre lança o gado nas vacarias, buscando atrair para as regiões mais desertas o caçador branco e suprir futuras necessidades de seus povos.
O couro passa a ter para economia uma importância fundamental durante o século XVIII.
Os missionários que já tinham enfrentado grandes dificuldades se rendem a nova ordem econômica que se instalava no Brasil, o capitalismo.
Esse capitalismo ainda era arcaico, subsidiário, mesmo assim capitalismo, com sede de lucro, extração de mais valia, e apropriação de riquezas.
A coroa oferece terras incomensuráveis latifúndio distribuído entre pessoas para eles digna de crédito, tais como militares e homens de posse.
A grande propriedade asseguraria ao estado português à valiosa courama, o efetivo domínio territorial, a repressão do regime anárquico de preia do gado alçado.
Em busca deste couro cavaleiros errantes vagavam pelos campos solitários ou em bandos.
Indivíduos denominados de gaudérios ou gaúchos pouco se sabia, senão que sua origem residia tanto na dispersão das Missões, quanto dos estrupos das índias, pratica corriqueira de bandeirantes e soldados. Eram indiáticos, mestiços raros os brancos.
Herdaram dos guaranis a habilidade para as lides pastoris (campeiras) a capacidade para montar, mas na dispersão dos povos originários do lugar perderam sua identidade tornando-se marginais.
Não se submetiam as regras do capitalismo, era indispensável desaloja-lo de seus domínios, para evitar a rapinagem.
Os estancieiros tratavam de incorpora-los ao processo produtivo, ainda que semibárbaros constituíam uma mão de obra especializada, e eram fiéis aos patrões, um procedimento característico das sociedades pastoris.
Integrados as fazendas preenchiam o seu “vácuo” moral com a moralidade dos poderosos: crença na honra, no direito a propriedade privada etc.
O viajante Frances Nicolau Dreys assim se refere ao gaucho:
Sem chefes, sem leis, sem policia, os gaúchos não tem da
moral senão ideias vulgares, e sobretudo, uma sorte de
probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade
de quem lhes faz benefícios ou de quem os emprega ou
neles deposita confiança.
Esses vaqueiros por assim dizer seriam os primeiros boias frias da região sulina.
Em segundo lugar, usou-se estes gaúchos como bucha de canhão nas fronteiras militares, as várias guerras vividas pela província exigiam um expressivo número de soldados pobres e corajosos a arriscarem a vida pela mística do heroísmo e pelo saque sempre compensatório.
Sem descartar o emprego da violência à burguesia rural rio grandense, diferente da Argentina, usou formas menos ásperas para o recrutamento, utilizando-se de certa astúcia ideológica convocando os homens do campo via reprodução de lugares comuns machistas e ufanistas.
Essa relativa suavização, prendeu-se a dois fatores:
Já se havia conquistado a boa terra propícia ao pastoreio
O número de vagos era quase insignificante, por causa da colonização tardia, logo a ameaça destes elementos antisociais tornava-se bem menos que na vizinhança platina.
Penso que até aqui, baseado em Gonzaga, pude descrever um pouco do que foi o então homem nativo deste Estado Sulino, chamado hoje de Gaúcho com honras e glórias, teve no passado uma conotação pejorativa e denegrida.
Com o passar dos anos este homem então marginalizado e submetido às barbáries da sua época, foi se domesticando e integrado a sociedade agora capitalista, como empregado em estância e assalariado.
Supõe-se então que em meados do século XIX a figura marginalizada do gaúcho pudesse já estar extinta do convívio dos cidadãos. Perfeitamente integrado, vê-se renascer um instrumento de sustentação e imposição ideológica, dos mesmos grupos que até então o haviam destruído como figura humana.
A imagem positiva do gaúcho, nos remete a 1835 quando da Revolução Farroupilha os lideres já ofereciam ao então valorizado e reconhecido mais do que um simples soldo e a perspectiva de saque, senão acenavam aos escravos muito utilizados com a “liberdade”.
Nos primórdios do século XX a imagem do gaúcho foi agitada para o centro do país, como sendo de um homem-coletivo, digno e generoso, mas irremovível na defesa de sua “honra” e dos seus direitos.
Insistia-se na força guerreira e na expressividade popular do tipo sulino, legitimando os interesses dos pecuaristas no contexto da República Velha.
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